domingo, 14 de outubro de 2018

A Ilusão da Vida e a Roda do Samsara





O conceito de samsara, a eterna roda da vida e da morte como descrita pelos hinduístas e budistas chegou a nós, ocidentais com toda força na segunda metade do século 20.  Mas, a rigor, esse pensamento já havia estado entre nós quando foram difundidos os arcanos do Tarot, especialmente com a carta A Roda da Fortuna.  

A carta, no Tarot de Marselha, um dos mais conhecidos, mostra  uma roda onde giram três criaturas.  Duas estão juntas à roda e, quando uma sobe, a outra desce.  A terceira está numa plataforma e usa uma coroa e uma espada que, apesar disso, só demonstram “o fenômeno passageiro do domínio.”

O samsara, no orientalismo, é o fluxo incessante dos renascimentos através dos mundos.  Assume conotação negativa, como uma condição a ser superada. Relaciona-se, portanto, com a ideia de reencarnação.  Mas é necessário mesmo acreditar na reencarnação para analisar ou vivenciar a superação do samsara?

Não se pode separar a doutrina da reencarnação da lei do karma; isso é verdadeiro.  O budismo detalha os chamados elos de originação dependente, conhecidos como nidanas, que relacionam-se com as causas e efeitos, envolvendo desejos, consciência, hábitos e tendências. Para os hindus também essa ligação entre reencarnação e karma é fundamental.  Sendo o esquecimento das vidas explicada pelo fato de que a mente consciente se rege pelas tendências resultantes da memória e não pela própria memória.

Mas a ideia de evolucionismo, de que cada reencarnação próxima poderia ser melhor do que a anterior só foi incluída no pensamento espiritualista através da codificação da doutrina espírita de Allan Kardec no final do século XIX.  A concepção evolucionista não existia na Antiguidade oriental.

A roda do samsara equivale a uma seqüência infinita de causa e efeito, na qual somos o sonho de alguém enquanto sonhamos um  outro.  Não há um eu permanente, todos os “eus” são transitórios que subsistem e sobrevivem num outro eu, tão ilusório quanto o primeiro.  Alguém viu alguma semelhança com os enredos de filmes hollywodianos como A Origem ou Matrix?

Entendida como metáfora psicológica, a roda do samsara pode significar a seqüência de despertares de consciência que um indivíduo tem ao longo da vida.  Morrendo (deixando-se submergir na inconsciência) e renascendo (tendo consciência plena da sua vida). 

O psicanalista C. G. Jung em seu primeiro trabalho, tentou mostrar que “os espíritos” que uma médium incorporava eram diferentes facetas da personalidade da mesma e, assim, eram manifestações do inconsciente pessoal dela.  Não quero com isso, criar um conflito com o espiritismo nem com seus adeptos, muitos deles, meus amigos.  Apenas desejo chegar ao ponto de que não é preciso ser espírita (ou budista, ou jainista, ou hinduísta) para pôr em prática o conceito da roda de samsara. 
 Existe a possibilidade de que uma memória coletiva seja transmitida geneticamente, o que nos levaria a pensar e sentir como se a memória de outra pessoa fosse uma outra existência nossa no passado e, às vezes, até no futuro, como certas viagens astrais demonstram com experimentos xamânicos, por exemplo.

Longe de esgotar o assunto, pretendo, tão somente, trazê-lo de volta à baila para que possa ser amplamente discutido.  A roda do samsara, a ilusão da vida, das muitas vidas numa só vida pode e deve ser pesquisada e analisada nos diversos aspectos que compõe a nossa realidade.  Ou a ilusão de realidade.  Afinal, segundo Parmênides, podemos dizer que os pensamentos são coisas. E se isso é verdade, as coisas são pensamentos.  

A física no fundo é uma psicologia porque descreve uma realidade que é, antes de tudo, mental e psíquica. O experimentador fazendo parte do sistema experimental como na física quântica.  Resta viver a ilusão ou superá-la se formos capazes.  Paz e luz.

 (Mauricio Duarte)


TFA/SFU
Ir Daniel Martina Toupitzen.'.
(Ilustração e Pesquisa)


quinta-feira, 2 de agosto de 2018

O Teu Riso _ Pablo Neruda

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

O que sente a pessoa com depressão


sábado, 9 de junho de 2018

3 Efeitos Muito Curiosos Da Depressão

A depressão é uma das patologias mentais mais difundidas no mundo. De fato, estima-se que a doença afeta 4,4% da população mundial e 5,8% dos brasileiros, segundo dados da OMS. Brasil é o país com maior prevalência de ansiedade no mundo: 9,3%.
Entretanto, além da tristeza, do desespero e da apatia associados a esse problema, os efeitos da depressão também se estendem a outras esferas gerando mudanças muito curiosas.
1. Depressão reduz o tamanho do cérebro
Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Yale descobriu que a depressão pode causar uma diminuição no volume cerebral, porque os neurônios em algumas áreas são menores e perderam a densidade. Como resultado, as conexões neuronais são afetadas. Para alcançar esses resultados, o tecido cerebral de pessoas com e sem depressão foi analisado.
Aparentemente, tudo é devido ao GATA1, uma proteína que participa da regulação da transcrição do DNA e age como se fosse uma mudança genética que é ativada no cérebro de pessoas que sofrem de depressão.
O GATA1 reprime a expressão de alguns genes envolvidos na formação de conexões sinápticas entre neurônios que afetam o tamanho e a complexidade de dendrites, que são essenciais para a sinapse. Como você pode imaginar, esta perda não só provoca alterações para afetiva e nível cognitivo, mas também provoca uma perda de massa no córtex pré-frontal, que desempenha um papel fundamental na tomada de decisões, controle de impulsos e manuseio emoções
2. Diminui as lembranças
Pesquisas na Universidade Brigham Young descobriram que a depressão obstrui as lembranças. Na verdade, durante décadas, a depressão esteve ligada a uma memória fraca, mas a verdade é que o mecanismo básico não era conhecido. Agora, esses pesquisadores trouxeram à luz.
Leia Mais: Depressão sem motivo: é possível?
Esses cientistas recrutaram pessoas diagnosticadas com depressão e outras supostamente saudáveis. Cada participante viu uma série de objetos que apareceram na tela. Em seguida, outros objetos foram apresentados e desta vez tiveram que indicar se tinham visto antes, se foi um dos objetos exibidos ou se era algo totalmente novo.
Nesse ponto, os pesquisadores perceberam que as pessoas deprimidas tendiam a confundir os objetos que os marcavam como semelhantes a outros que já tinham visto. O que significa isto? Que a depressão não causa amnésia, mas uma falta de precisão nos detalhes, é como se as pessoas deprimidas continuamente usassem óculos que obscurecem a percepção e, como resultado, não conseguem se lembrar dos detalhes.
3. Melhora a percepção do tempo
Embora a depressão seja revestida com uma alma negativa, também tem suas vantagens. De fato, um estudo desenvolvido na Universidade de Hertfordshire mostra que pessoas deprimidas têm uma percepção mais objetiva do tempo do que os outros mortais.
O estudo envolveu pessoas diagnosticadas com depressão moderada e outras supostamente saudáveis. Eles tiveram que ouvir 5 bips com duração de 5 a 65 segundos e, em seguida, foram informados de que tinham de lembrar números (tarefa de um desregulador) e, então, pediu-se que avaliassem a duração de cada tom.
O curioso era que, praticamente sem exceção, as pessoas que não estavam deprimidas faziam estimativas mais altas, ao passo que, ao contrário, as pessoas deprimidas eram muito mais exatas. Por quê?
A explicação pode estar no conceito controverso de “realismo depressivo”, segundo o qual as pessoas deprimidas não são afetadas por expectativas positivas em excesso e muitas vezes temos aqueles que não sofrem de depressão apesar do diagnóstico.
Fontes:
Shelton, D.J. & Kirwan, C.B. (2013) Uma possível influência negativa da depressão na capacidade de superar a interferência da memória. Pesquisa Cerebral Comportamental; 256 (1): 20-26.
Kornbrot, D.E. et. Al. (2013) Tempo Percepção e Realismo Depressivo: Tipo de Julgamento, Funções Psicofísicas e Viés. PlosOne; 8 (8).
Shirayama, Y. et. Al. (2002) Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro Produz Efeitos Antidepressivos em Modelos Comportamentais de Depressão. The Journal of Neuroscience; 22 (8): 3251-3261.
(Fonte: rinconpsicologia)
*Traduzido e adaptado pela equipe Fãs da Psicanálise